domingo, 5 de julho de 2015

Arte & Letra e Fotografia com Karam

Para homenagear os 30 anos do início da carreira de Manoel Carlos Karam — escritor, dramaturgo e jornalista que viveu a maior parte de sua vida em Curitiba — a Arte & Letra lançou em junho (2015) o desafio Fotografando Karam, a fim de estender a literatura para o campo visual da fotografia.

Os participantes deveriam enviar uma fotografia livre contendo uma breve defesa relacionando a foto à obra de Karam. No fim seriam escolhidas duas fotos e os vencedores receberiam como prêmio sete livros do autor e uma ecobag personalizada. 

Tive a felicidade de ter minha foto selecionada pelos organizadores! A seguinte foto foi acompanhada da frase "Manoel Carlos Karam costumava dizer que sempre começava a escrever sem saber o fim da história: o que importa é o caminho, a maneira de contá-la, não o destino":

Foto tirada em janeiro de 2015 no Parque Nacional do Iguaçu


Assim, recebi os seguintes livros: O impostor no baile de máscaras (1992), Fontes murmurantes, Cebola (1997), Comendo bolacha maria no dia de são nunca (1999), Pescoço ladeado por parafusos (2001), Algum tempo depois e Meia dúzia de criaturas gritando no palco, sendo os seis primeiros romances e o último contendo peças de teatro. O quarto, quinto e sexto livros foram publicados pela editora Arte & Letra.

Coincidentemente o prêmio chegou no dia do meu aniversário — um ótimo presente. Eu mal conhecia Manoel Carlos Karam. Agora terei a oportunidade de chafurdar em sua obra ímpar, onde o familiar se torna estranho e o autor não hesita em misturar gêneros, criando um texto livre, peculiar e hilariante. 


Eis os livros recebidos =]

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Uma aula insólita

Numa cidade provinciana, habitada por pessoas com mentalidade provinciana, as novas ideias demoravam a chegar. Nesta cidade havia alguns colégios esquecidos pelo Poder Público. Eram em geral frequentados por estudantes desinteressados nas aulas, que por sua vez costumavam ser mesmo desinteressantes. E foi num desses colégios que algo extraordinário aconteceu.

Era quarta-feira de manhã, um dia normal de aula, quando a professora Rita começou a divagar, deixando a matéria de lado. Isso era bastante corriqueiro. Ela costumava falar da própria vida, fazer reflexões sobre questões atuais e ir emendando um assunto no outro até o sinal bater. Quem melhor do que os alunos para ouvir os dilemas pessoais do professor?

— Casamento homossexual, gays adotando crianças, meu Deus... onde este mundo vai parar? Tinham que proibir! — questionava a professora.

— A senhora acha que tinham que proibir as pessoas de serem gays ou de eles adotarem? — perguntou uma garota sentada na frente.
— Tudo bem por mim que eles tenham relação entre eles. São adultos e têm o livre arbítrio para fazer o que bem entenderem. Se escolhem viver em pecado, que assumam as consequências. Mas não podem impor a uma criança ter de crescer num ambiente desses.

Alguém no fundo da sala ergueu a mão, como quem quer falar. Era Henrique. Um “vish” foi proferido em uníssono pelos alunos.
Henrique só abria a boca na sala de aula para sacanear. Ele jamais praticou bullying ou abusou de seus colegas de sala; apenas os usava — eram sua plateia. Era com eles que testava suas piadas. Só dali a dez anos conheceria George Carlin, Jerry Seinfeld e aprenderia alguma coisa sobre fazer humor. Até lá, fazia suas graças amadoras, imaginando-se mais sagaz do que de fato era, apesar de ter algum talento.

— Mas, professora — disse Henrique — então para sermos justos teríamos que proibir as pessoas estúpidas de terem filhos.
— Como assim? — indagou a professora Rita, ríspida.
— Pessoas que usam argumentos como os da senhora. As crianças deveriam ser poupadas de tamanha estupidez.

Rita ficou irritada e não acreditou na ousadia do garoto.
— Deixa eu mostrar uma coisa pra vocês — respondeu procurando algo na bolsa, até que tirou um livro: Bíblia Sagrada, dizia a capa em letras douradas. — Segundo as escrituras, o estilo homossexual de vida não está correto — disse após folhear bastante e parar numa página, que grifou, e então o mostrou pra garota que estava na primeira carteira. Determinou que lesse e passasse ao colega de trás, até que todos tivessem lido.

Henrique enfiou a mão na mochila da colega ao lado e retirou um livro: Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ele ergueu o livro e sorriu.
— Ei, professora, segundo este livro, Harry Potter e seus colegas aprendem a voar em vassouras numa aula. Não é isso que devia estar nos ensinando?

Houve um silêncio momentâneo, que foi quebrado por uma forte gargalhada vinda do corredor. Era o diretor Alberto que estava passando e, ao ouvir a conversa na sala, decidiu entrar.

Alberto era um homem culto e nada provinciano. Lia de tudo e estava sempre a par das últimas descobertas científicas, dos pensamentos filosóficos pós-modernos e das artes contemporâneas. Era um adepto do humanismo secular. Para Rita, havia uma seção do Inferno especialmente reservada a estes.

— Diretor, eu estava tentando passar alguns valores aos alunos quando Henrique foi bastante mal educado.
— Desculpe, professora — disse Alberto pousando a mão no ombro de Rita — mas dessa vez você perdeu.

A professora Rita ficou perplexa, com os olhos esbugalhados. Saiu da sala cambaleante e se arrastou pelo corredor feito um zumbi. Ao chegar ao pátio avistou uma zeladora varrendo, correu até ela e tomou-lhe a vassoura. Olhou ao redor e viu algumas crianças matando aula. Mostrou-lhes a língua de uma maneira assustadora. O diretor Alberto vinha em sua direção, preocupado, quando ela agarrou fortemente a vassoura, montou-a num salto e alçou voo. As crianças no pátio acenaram dando tchau. Rita nunca mais foi vista.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Alívio pós sonho

Sempre sou pego de surpresa quando acordo após um pesadelo terrível que parece ter acontecido de verdade e percebo que tudo não passou de um sonho. Sinto um imenso alívio e volto a dormir, feliz. Hoje a surpresa foi um tanto diferente.

Sonhei com uma esfera gigante que girava sem motivo algum, e com esferas incandescentes ainda maiores pairando no céu.
Sonhei com um extenso oceano tão bizarro que a sopa orgânica em sua profundeza começou a brotar vida.
Sonhei com seres que surgiam uns dos outros, alimentavam-se uns dos outros, esfregavam-se uns nos outros e se reproduziam.
Sonhei com bichos que nadavam, rastejavam, voavam e caminhavam.
Sonhei com um mundo complexo, onde para tudo há um nome correspondente.
Sonhei com a sucessão efêmera de impérios e civilizações.
Sonhei que tudo isso ficava num lugar indeterminado sem começo nem fim.
Sonhei que tudo estava se expandindo para lugar nenhum.

Finalmente acordei, ofegante. Mas, dessa vez, o alívio não veio.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Dissonância medieval

Em certo ponto do medievo era assim:

Os vikings erguiam seus machados homenageando Thor, navegavam, bradavam e saqueavam.
Os cristãos erguiam suas espadas em nome de Deus, navegavam, saqueavam, acumulavam e catequizavam.

Resultado:

Odin, Thor e companhia viraram mitologia.
Já o Deus cristão converteu os pagãos.
(e para alguns ainda dá um dinheirão).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ponderações sobre o futuro

Resolvi acessar o blog para dar uma olhada e levei um susto: a última postagem data de 23 de dezembro de 2013. Faz praticamente um ano! Não sou nenhum campeão em periodicidade, mas poxa, um ano é bastante tempo. Assim, decreto a seguinte regra: o lapso temporal entre duas postagens neste blog não excederá um ano, sob pena de o autor ficar um mês sem consumir cafeína. E para não infringir a norma recém-criada: eis a postagem.

Admiro os poucos que ainda conseguem manter uma boa periodicidade nas postagens em blogs (não que eu tenha alguma vez tentado). Recentemente houve grande popularização dos vlogs: canais no Youtube vêm ganhando cada vez mais audiência e destaque. Compare o número de visualizações de tais vídeos com o de páginas escritas, por exemplo. Mas a verdade, caro leitor, é que mesmo em sua época áurea os blogs jamais foram assim tão populares, sendo um veículo eficaz para um público pequeno, porém fiel. Contudo, não viso abordar isso aqui.

De antemão, lanço a pergunta: o que você quer fazer de sua vida? Pois este post é basicamente sobre isso. Mas não trato essa questão de modo teórico-acadêmico, tampouco de forma genérica. Ao contrário: parto de meu próprio ponto de vista. Tão somente isso.

Ressalto ainda que este blog não é acadêmico. Não viso aqui escrever em terceira pessoa a partir de uma suposta perspectiva objetiva usando palavras como “destarte” e citando fontes nas benditas normas da ABNT. Este espaço sempre retratou, de forma mais qualitativa que quantitativa (sorry), pequenas criações deste autor, além de sua — minha — visão sobre este ou aquele livro, filme ou coisa que os valha. Sigo.

Aos vinte e dois, me formei em Direito. A colação de grau e a festa de formatura são só mês que vem, em dois mil e quinze. Mas acabou.

Rapidamente se passaram cinco anos de graduação, permeados por projetos de pesquisa, participação em grupos de estudo, estágios, congressos, simpósios, etc. Ao todo foram quatro mil quatrocentas e quarenta horas-aula. Creio ter aproveitado, ao menos razoavelmente bem, as oportunidades da vida de graduando, que terminou com a aprovação de meu trabalho de conclusão de curso. Nota máxima. O Acesso à Internet: um Novo Direito Fundamental, foi o tema pesquisado. Mas o post também não é sobre isso (quem sabe numa próxima).

Há pouco, antes de começar este texto, estava estudando para a segunda fase do Exame da OAB, que atualmente é unificado: aplica-se a mesma prova em todo o território nacional. Passei na primeira fase sem ao menos estudar, creio que a base adquirida na faculdade foi útil. Já para a segunda a coisa muda, as peculiaridades das peças processuais demandam mais atenção. O estudo para a OAB geralmente significa uma coisa na vida de um estudante de Direito: a iminência do fim da graduação.

Com o final da faculdade, se instaura a pergunta: e agora?

Decerto já nos perguntamos isso antes. A adolescência é sem dúvida o maior período de procrastinação existencial pelo qual alguém passa ao longo da vida. Se ao sair do ensino médio, há cinco anos, eu não tinha qualquer certeza e muitas dúvidas sobre o futuro; agora tenho menos dúvidas. Já consigo ao menos vislumbrar o caminho a ser seguido no horizonte.

É amplamente sabido que a distância mais curta entre dois pontos consiste numa linha reta (a não ser que se use um buraco de minhoca de atalho, o que não vem ao caso...). Assim, não raro costumamos enxergar o caminho que devemos percorrer a fim de concretizar um objetivo dessa forma, como uma simples linha reta que liga o presente (ponto A) ao futuro almejado (ponto B).

Contudo, a vida não é tão simples nem linear. A linha onde projetamos nosso trajeto inevitavelmente fará curvas para os lados, intempéries de toda a natureza e eventuais buracos na estrada podem protelar nossa chegada, nos apresentar novos caminhos e nos conduzir a lugares inesperados. Em todos os aspectos da vida, é importante não deixar que o almejado ponto B da reta hipotética nos tire a atenção do aprendizado a ser adquirido enquanto caminhamos.

Isso me lembra da lição que aprendi com Lost, cujo final revoltou a muitos fãs na época. É o seguinte:

Às vezes a viagem é mais valiosa do que o destino.

No caso da série e seu desfecho, essa lição se aplica totalmente. Na vida, só conseguimos ver o valor do que aprendemos ao longo de uma jornada ao olhamos retrospectivamente, após termos percorrido um bom trajeto.

Há uma cena de Matrix em que Morpheus diz para Neo:

"Cedo ou tarde você vai perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho."

Este é o ponto.

No meu caminho, em curto prazo, vislumbro a prova da OAB e de alguns concursos. Mas e no futuro distante? O que farei de minha vida?

A verdade é que não há como encaixar todas as minhas pretensões num modelo pré-estabelecido. Quero coisas demais. O que me parece razoável como meta, por ora, trata-se de uma carreira jurídica-acadêmica-literária. Nunca ouviu falar disso? Pois então. Há que se criar o próprio caminho.

A graduação me ensinou a gostar da pesquisa acadêmica, e também contribuiu para o meu interesse pela prática do Direito. Mas ambas não me satisfariam por completo. É preciso criar: eis a literatura. Entre a escrita acadêmica, a escrita técnica da prática jurídica e a escrita literária, esta é sem dúvida onde se tem o maior grau de liberdade; é onde posso dar vazão às constantes erupções de ideias que me acontecem. Posso projetar para o meu futuro, portanto, ao menos três pretensões. Como vou concretizá-las? Só saberei ao percorrer o caminho.

E você, já encontrou o seu caminho?